Exilio
Exílio é um livro de poemas curtos que podem ser lidos como um único texto. Tem o formato de um diário de notas e foi escrito na cisplatina uruguaia onde o campo encontra as dunas. Ao oeste, as várzeas e o moinho, os bosques de eucalipto e o horizonte do pampa, ao leste, a enseada e o farol, as ondas e o horizonte do oceano. O arco do céu antes de provocar a sensação de amplidão, é uma redoma que isola. Exílio aqui não tem, evidentemente, conotação de desterro. O sujeito que toma aquelas notas foi um poeta que passou a desconfiar das suas palavras ao ponto de dissociar-se do próprio pensamento. Ele não se identifica mais com o que pensa. Ele é outro em relação ao que sente. Perde assim a imagem de si mesmo no mundo e, ao fazê-lo, perde o seu lugar no mundo. É nesse sentido que se torna um exilado. Ausente em si mesmo, se sente longe de onde está. Um poeta que perde a fé nas palavras é uma doença sem corpo. Apesar disso, antes como narração, que como criação de poemas propriamente ditos, anota quando recorre a cavalo o campo, quando caminha na praia, quando lê um livro. Anota o que acontece no presente imediato, já que decidiu, mais que esquecer seu passado, esquecer de si mesmo. Futuro e passado se equivalem, não estão aqui. Sabe que não há nada para mudar. Ele está vazio. Para enfrentar o silêncio desse vazio usa, na falta de dominar outro instrumento e apesar da sua descrença, a linguagem. Se relaciona com as palavras agora de um modo diverso. Não pretende fazer o poema. As notas o fixam no presente e, de alguma forma remota, lhe confere algum sentido, às vezes com beleza. Percebe que a maneira como antes escrevia era, com freqüência, distorcida pela premeditação da obra de arte. Datado entre o inverno e a primavera de 1997, foi lançado mais de dez anos depois pela editora Movimento, de Porto Alegre.